Posts Tagged 'Werner Herzog'

Indie 2009 – Encounters At The End Of The World

Herzog desloca-se à Antárctida a convite de um amigo mergulhador para filmar o quotidiano dos investigadores na estação McMurdo. Encontra filósofos que conduzem Caterpillars, linguistas que tratam de plantas e cientistas que vão enlouquecendo a olhar para pinguins, e não perde uma oportunidade para demonstrar a demência dos seus personagens e o absurdo das suas actividades.

O plano de combate do realizador alemão é enunciado logo no início, informando-nos que não tinha qualquer interesse em fazer um filme de “pinguins fofos.” De facto, essa componente de deslumbramento com a Natureza está praticamente ausente deste filme. Em vez de um pastiche National Geographic, o que Herzog nos oferece é o freak show da Antárctida, povoado por seres bizarros que, insulados em investigações mais ou menos esotéricas, vão lentamente perdendo a sua conexão com a realidade.

O caso mais extremo é sem dúvida o do especialista em pinguins, que após 20 anos a escutar grasnidos, perdeu claramente a capacidade de comunicar de forma inteligível com seres humanos. Mas temos também o linguista que, tendo ido parar a uma terra inabitada, se ocupa agora de uma estufa. Ou a cientista que, antes de desembarcar na Antárctida, viajou milhares de quilómetros na América do Sul dentro de um cano de esgoto, à boleia num camião.

O ponto de contacto entre todos estes personagens é uma enorme dose de excentricidade, que os projectou para lá do jogo social e os fez resvalar para a Antárctida, como que sugados por um íman que atrai os mais excêntricos entre os excêntricos. Esse é, aliás, um conceito sublinhado por diversos dos entrevistados, que apresentam a Antárctida como o ponto onde as paralelas se cruzam e todos os outsiders se reúnem. E é essa dimensão de Twilight Zone que, como não podia deixar de ser, atrai também a Herzog.

Encounters At The End Of The World, se tem a inegável qualidade de oferecer uma perspectiva pouco vista sobre o mundo da investigação científica, torna-se por vezes confrangedor na forma rude como trata quem se coloca do lado de lá da objectiva. O “humor” de Herzog ultrapassa largamente os limites do que pode ser descrito como “corrosivo”, gozando descaradamente com os seus entrevistados e questionando de forma evidente a sanidade mental de alguns.

Nem o “amigo” mergulhador escapa ao olhar impiedoso de Herzog, com a sua descrição psicótica da violência e do horror do mundo microscópico a fazer-nos questionar seriamente a sua aptidão para regressar ao convívio social após a longa estada em McMurdo.

Mas de todos o mais perturbado será talvez o homem atrás da câmara, Werner Herzog, que viajou milhares de quilómetros até ao continente gelado para gozar com as obsessões alheias. Talvez lhe reservem um quartinho na estação McMurdo, e lhe dêem uma tesoura da poda para tratar do jardim das plantas aromáticas. Seguramente não se sentiria deslocado no seu pequeno freak show.

No final resulta um filme desequilibrado, onde a dimensão de voyeurismo psiquiátrico, que cativa na mesma medida em que causa um intenso desconforto moral, se conjuga mal com as imagens a la Costeau, que parecem cosidas à pressa para tapar o buraco da falta de escrúpulos de Herzog.

Anúncios