Posts Tagged 'Indie Lisboa 2009'

Alasca

Um casal idoso vai sobrevivendo a degradação moral e física. A mulher sai para se prostituir; o marido fica em casa e contempla o suicídio enquanto come uma barra de chocolate Regina. Mas é Eugénia que termina a barra, quando o marido a vai buscar após mais uma noite na estrada.

Dizer que este filme de Miguel Seabra Lopes é aborrecido seria fazer-lhe um imenso favor. Na verdade, é uma seca inominável. Num filme de 21 minutos, os diálogos resumem-se a meia dúzia de palavras rosnadas, e a “acção” arrasta-se entre planos fixos e grandes planos de aspiração fotográfica.

A atmosfera criada é do mais deprimente que poderia haver, a fazer os irmãos Dardenne parecerem palhaços de circo. Que dizer da visão de uma prostituta sexagenária a rebentar bolhas de plástico numa beira de estrada enquanto espera que chegue um cliente suficientemente miserável, ou perturbado, para a aceitar? Não seria descabido concluir que o objectivo deste filme é fazer disparar as vendas de Prozac nas farmácias.

Estou em crer que Alasca seria capaz de fazer murchar as flores numa sala, tal é a sensação de infelicidade que emana da tela. Apenas os mais destemidos optimistas deverão testar a sua resiliência com o visionamento deste filme, que bastaria por si só para explicar o fenómeno de Benjamin Button.

Sea Dog’s Devotion

Filme de animação baseado no poema “Seemannstreue” de Joachim Ringelnatz, que narra a relação necrófila de um homem com a sua noiva.

Tenho de reconhecer que esta sinopse só foi possível com a ajuda do programa do Indie, visto que tive a maior dificuldade em extrair uma linha narrativa do filme de Anna Kalus. Talvez se conhecesse o poema de Ringelnatz tivesse apreciado o filme. Como nunca o li, só me restou observar atónito a sucessão delirante de imagens, sem diálogos nem narração, formando um todo opaco de onde o sentido era completamente inextrincável.

Aconselhado para saudosistas do Vasco Granja ou para quem ainda acredita nas propriedade benéficas dos cogumelos mágicos. Todos os outros poderão abster-se.

Instead of Abracadabra

Tomas é um aspirante a mágico que, aos 25 anos, ainda vive em casa dos pais. O pai desespera com a situação e tenta por todos os meios persuadir o filho a arranjar um emprego “decente”, mas Tomas vive imerso no mundo da magia.

Quando um truque corre mal e a mãe, que havia servido de cobaia, vai parar ao hospital, Tomas conhece Mónica, uma enfermeira que é sua vizinha. Conquistá-la parece ser o truque mais difícil de todos, mas Tomas confia na sua magia e convida-a para a festa de anos do pai, para a qual prepara um número que vai deixar todos de boca aberta.

Instead of Abracadabra é um filme ligeiro e divertido que, de forma absolutamente despretensiosa, aborda um tema bem actual, o dos jovens adultos que, presos a um ideal de vida que teima em não se concretizar, adiam a sua entrada no mercado de trabalho e permanecem em casa dos pais muito para além do que seria aconselhável.

Muitos espectadores do Indie reconhecer-se-ão seguramente na tensão entre Tomas e o pai, que, indiferente às aspirações artísticas do filho, o empurra para um emprego “normal”, apontando-lhe como exemplo de vida um ex-colega que é gerente de supermercado. Um bom filme do sueco Patrik Eklund, a provar que se podem abordar temas sérios de forma descomplexada.

2 Birds

Um grupo de adolescente, no caminho da descoberta sexual, vai parar a uma festa pouco recomendável. Depois de consumirem álcool e drogas, uma das raparigas é violada enquanto está inconsciente por dois homens mais velhos. O seu amante adolescente é impotente para impedir a violação, mas consegue protegê-la do seu conhecimento.

É comovente ver como o rapaz procura proteger a sua amada pubescente, a quem nunca teve a coragem de se declarar, e não hesita em enfiar-se na cama com ela e assumir as relações que não teve para a poupar ao trauma de se saber violada. Se isto não é amor adolescente, não sei o que será.

2 Birds é filmado com delicadeza nórdica por Runar Runarsson, um jovem realizador islandês que parece ter uma habilidade inata para enternecer as pedras da calçada. A atmosfera é semelhante à dos filmes de Larry Clark, mas, onde o realizador americano nos oferece uma visão desesperante da estupidez humana em botão, Runarsson conjura uma história de amor digna de um conto de cavalaria. Um must para amantes de Sigur Ros e Death Cab for Cutie. Contra-indicado para quem já achar que “amor” é partilhar um crédito-habitação na Caixa.

The Yellow Smiley Face

Um casal de meia-idade debate-se com um computador para conseguir comunicar com o filho que estuda nos Estados Unidos. Ele deixou instruções pormenorizadas, mas mesmo o mais simples pode tornar-se objecto de confusão.

A mãe não quer estragar o computador e vai seguindo a medo as instruções deixadas pelo filho, esperando a todo o momento a confirmação do pai antes de executar a acção mais simples. Este, aparentemente numa posição de maior autoridade, receia expor a sua própria ignorância, e não toca numa única tecla. Juntos vão penosamente avançando pelas instruções, até conseguirem comunicar com o filho.

Um filme divertido de Constantin Popescu, cineasta da chamada “nova vaga” do cinema romeno. Quem tiver pais na casa dos 50 poderá facilmente rever-se em muitas das situações que o filme evoca, como quando a mãe não encontra o botão de ligar o computador ou tenta falar com o filho sem um microfone. Um filme despretensioso, o que é uma qualidade particularmente refrescante nos dias que correm.

L’Arbitro

Um árbitro é exilado para a última divisão local italiana após ser condenado por corrupção desportiva. Durante uma partida de futebol onde as regras tradicionais não se aplicam, consegue escapar ao linchamento e converter-se num herói local após marcar inadvertidamente um golo na baliza adversária.

A aposta de Paolo Zucca recai numa filmagem surrealizante, a trair as suas raízes de realizador publicitário. Toda a realização é competente, com planos bem conseguidos e uma edição que imprime um bom ritmo. Tudo isto, contudo, revela-se insuficiente para disfarçar a falta de ideias e de originalidade.

L’arbitro só precisava de um produto para ser um excelente filme publicitário; seguramente seria um dos favoritos do público na Noite dos Publidevoradores. Na ausência de uma sales proposition, pedia-se algo mais de ideias para além do humor fácil do “caricato”.

5 Días de Septiembre

Um rapaz vive só numa casa à beira-mar, à espera do regresso da namorada que o abandonou. Essa existência suspensa é perturbada pela chegada inesperada de uma rapariga que, também ela, vive num limbo após a morte dos pais.

Ao contrário do rapaz, ela não espera, age, e procura retomar o fio quebrado da sua vida a partir do início, pegando na ponta inicial do novelo a partir da praia da sua concepção. Após a estranheza inicial que ambos se causam, a atracção desenvolve-se inevitavelmente entre ambos, mas o final feliz da praxe é impedido pelo in(esperado) regresso da namorada perdida. O rapaz regressa ao continuum que havia interrompido, enquanto ela segue à deriva, ao volante do seu carro encalhado.

Não se pode dizer que este filme de Fran Araújo e Manuel Burque seja uma grande revelação, mas não é de todo desinteressante, sobretudo se atendermos ao facto de que estamos perante uma primeira obra. Talvez uma maior maturidade da dupla espanhola ainda dê à luz boas peças.