Boris Godunov – Fura dels Baus em versão familiar

Boris GodunovOs míticos La Fura dels Baus trazem ao FITEI um projecto falhado. Aos 30 anos, estará o colectivo catalão demasiado institucionalizado para chocar?

Para quem já viu bons espectáculos dos Fura, como Manes ou, mais recentemente, a soberba adaptação da Metamorfose de Kafka, Boris Godunov só pode constituir uma total desilusão.

O espectáculo começa com uma normal representação em palco da peça Boris Godunov de Pushkin, mas rapidamente a acção, como é próprio dos Fura, transborda para lá do palco, envolvendo o público num cenário de sequestro terrorista, inspirado no assalto por comandos tchetchenos ao teatro Dubrovka de Moscovo em 2002.

A premissa parece interessante, e os Fura seriam a companhia certa para a fazer funcionar. O problema é que a imersão no cenário do sequestro falha totalmente, com o público a assistir divertido às movimentações dos terroristas pela sala. Nem por um instante somos levados a adoptar a suspension of disbelief de que, muito mais do que uma normal peça de palco, um espectáculo deste tipo depende.

Que diferença do ambiente de ritual pagão de Manes, onde era palpável o controlo do grupo sobre um público que sentia ter sido atirado para dentro da jaula com os leões. Nada disso acontece aqui. Este é um espectáculo familiar, que, apesar de restrito a maiores de 16 anos, teria dificuldades em sobressaltar criancinhas de colo.

Há gritos e ameaças, há rajadas de metralhadora e explosões, e até há bidões de explosivos instalados junto do público com terroristas de detonador na mão prontas a acabar com a degradação do Coliseu. O que não há, infelizmente, é aquela explosão de sentimento primário que sustentaria todo o cenário. Não adianta gritar e ameaçar quando ninguém nos está a levar a sério.

A tensão dramática, já de si bastante frágil, é completamente destroçada quando as duas dimensões representativas se entrelaçam e volta a ser representado Boris Godunov em palco, como se o assalto ao teatro – de que todos estávamos supostamente a ser vítimas –  nunca tivesse acontecido.

Ao público é então pedido que esqueça o seu papel activo de refém e volte a assumir a mais passiva condição de mero espectador, ignorando os terroristas espalhados pela sala com metralhadoras e detonadores e concentrando-se em reflectir sobre a legitimidade da luta armada como forma de resistência a um poder percebido como ilegítimo.

Se o objectivo de toda a encenação do sequestro era imergir, na medida do possível, os espectadores no ambiente vivido no teatro Dubrovka (e como poderia ser outro?) – o incompreensível recurso a este artifício dramatúrgico tem o condão de destruir completamente essa possibilidade, reduzindo toda a montagem a um inconsequente e inepto jogo de faz-de-conta, em que o que se passa em cima do palco acaba por parecer mais real do que o que ocorre fora dele.

Nem as inserções vídeo a mostrarem os terroristas a movimentarem-se pelos corredores do Coliseu e a ocuparem a rua conseguem adicionar alguma credibilidade às suas ameaças, com as rajadas de metralhadora a revelarem-se impotentes para eliminar um inapelável sentimento de irrealidade.

Os Fura parecem ter querido fazer um espectáculo de choque passível de ser visto por senhoras com casacos de peles – uma aposta que claramente perderam. O “teatro total” dos Fura perdeu garra, mas compreende-se: aos 30 anos, é difícil continuar a atirar com tinta para cima dos críticos.
No final, contudo, metade da sala (que estava, quando muito, meio cheia) aplaudiu de pé. Deve ser o Síndrome de Estocolmo.

Alasca

Um casal idoso vai sobrevivendo a degradação moral e física. A mulher sai para se prostituir; o marido fica em casa e contempla o suicídio enquanto come uma barra de chocolate Regina. Mas é Eugénia que termina a barra, quando o marido a vai buscar após mais uma noite na estrada.

Dizer que este filme de Miguel Seabra Lopes é aborrecido seria fazer-lhe um imenso favor. Na verdade, é uma seca inominável. Num filme de 21 minutos, os diálogos resumem-se a meia dúzia de palavras rosnadas, e a “acção” arrasta-se entre planos fixos e grandes planos de aspiração fotográfica.

A atmosfera criada é do mais deprimente que poderia haver, a fazer os irmãos Dardenne parecerem palhaços de circo. Que dizer da visão de uma prostituta sexagenária a rebentar bolhas de plástico numa beira de estrada enquanto espera que chegue um cliente suficientemente miserável, ou perturbado, para a aceitar? Não seria descabido concluir que o objectivo deste filme é fazer disparar as vendas de Prozac nas farmácias.

Estou em crer que Alasca seria capaz de fazer murchar as flores numa sala, tal é a sensação de infelicidade que emana da tela. Apenas os mais destemidos optimistas deverão testar a sua resiliência com o visionamento deste filme, que bastaria por si só para explicar o fenómeno de Benjamin Button.

Sea Dog’s Devotion

Filme de animação baseado no poema “Seemannstreue” de Joachim Ringelnatz, que narra a relação necrófila de um homem com a sua noiva.

Tenho de reconhecer que esta sinopse só foi possível com a ajuda do programa do Indie, visto que tive a maior dificuldade em extrair uma linha narrativa do filme de Anna Kalus. Talvez se conhecesse o poema de Ringelnatz tivesse apreciado o filme. Como nunca o li, só me restou observar atónito a sucessão delirante de imagens, sem diálogos nem narração, formando um todo opaco de onde o sentido era completamente inextrincável.

Aconselhado para saudosistas do Vasco Granja ou para quem ainda acredita nas propriedade benéficas dos cogumelos mágicos. Todos os outros poderão abster-se.

Instead of Abracadabra

Tomas é um aspirante a mágico que, aos 25 anos, ainda vive em casa dos pais. O pai desespera com a situação e tenta por todos os meios persuadir o filho a arranjar um emprego “decente”, mas Tomas vive imerso no mundo da magia.

Quando um truque corre mal e a mãe, que havia servido de cobaia, vai parar ao hospital, Tomas conhece Mónica, uma enfermeira que é sua vizinha. Conquistá-la parece ser o truque mais difícil de todos, mas Tomas confia na sua magia e convida-a para a festa de anos do pai, para a qual prepara um número que vai deixar todos de boca aberta.

Instead of Abracadabra é um filme ligeiro e divertido que, de forma absolutamente despretensiosa, aborda um tema bem actual, o dos jovens adultos que, presos a um ideal de vida que teima em não se concretizar, adiam a sua entrada no mercado de trabalho e permanecem em casa dos pais muito para além do que seria aconselhável.

Muitos espectadores do Indie reconhecer-se-ão seguramente na tensão entre Tomas e o pai, que, indiferente às aspirações artísticas do filho, o empurra para um emprego “normal”, apontando-lhe como exemplo de vida um ex-colega que é gerente de supermercado. Um bom filme do sueco Patrik Eklund, a provar que se podem abordar temas sérios de forma descomplexada.

2 Birds

Um grupo de adolescente, no caminho da descoberta sexual, vai parar a uma festa pouco recomendável. Depois de consumirem álcool e drogas, uma das raparigas é violada enquanto está inconsciente por dois homens mais velhos. O seu amante adolescente é impotente para impedir a violação, mas consegue protegê-la do seu conhecimento.

É comovente ver como o rapaz procura proteger a sua amada pubescente, a quem nunca teve a coragem de se declarar, e não hesita em enfiar-se na cama com ela e assumir as relações que não teve para a poupar ao trauma de se saber violada. Se isto não é amor adolescente, não sei o que será.

2 Birds é filmado com delicadeza nórdica por Runar Runarsson, um jovem realizador islandês que parece ter uma habilidade inata para enternecer as pedras da calçada. A atmosfera é semelhante à dos filmes de Larry Clark, mas, onde o realizador americano nos oferece uma visão desesperante da estupidez humana em botão, Runarsson conjura uma história de amor digna de um conto de cavalaria. Um must para amantes de Sigur Ros e Death Cab for Cutie. Contra-indicado para quem já achar que “amor” é partilhar um crédito-habitação na Caixa.

The Yellow Smiley Face

Um casal de meia-idade debate-se com um computador para conseguir comunicar com o filho que estuda nos Estados Unidos. Ele deixou instruções pormenorizadas, mas mesmo o mais simples pode tornar-se objecto de confusão.

A mãe não quer estragar o computador e vai seguindo a medo as instruções deixadas pelo filho, esperando a todo o momento a confirmação do pai antes de executar a acção mais simples. Este, aparentemente numa posição de maior autoridade, receia expor a sua própria ignorância, e não toca numa única tecla. Juntos vão penosamente avançando pelas instruções, até conseguirem comunicar com o filho.

Um filme divertido de Constantin Popescu, cineasta da chamada “nova vaga” do cinema romeno. Quem tiver pais na casa dos 50 poderá facilmente rever-se em muitas das situações que o filme evoca, como quando a mãe não encontra o botão de ligar o computador ou tenta falar com o filho sem um microfone. Um filme despretensioso, o que é uma qualidade particularmente refrescante nos dias que correm.

L’Arbitro

Um árbitro é exilado para a última divisão local italiana após ser condenado por corrupção desportiva. Durante uma partida de futebol onde as regras tradicionais não se aplicam, consegue escapar ao linchamento e converter-se num herói local após marcar inadvertidamente um golo na baliza adversária.

A aposta de Paolo Zucca recai numa filmagem surrealizante, a trair as suas raízes de realizador publicitário. Toda a realização é competente, com planos bem conseguidos e uma edição que imprime um bom ritmo. Tudo isto, contudo, revela-se insuficiente para disfarçar a falta de ideias e de originalidade.

L’arbitro só precisava de um produto para ser um excelente filme publicitário; seguramente seria um dos favoritos do público na Noite dos Publidevoradores. Na ausência de uma sales proposition, pedia-se algo mais de ideias para além do humor fácil do “caricato”.