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Expectations

Um homem regressa a casa após uma viagem falhada. Destroçado pelo seu falhanço, arrasta-se num estado catatónico, indiferente às solicitações da ex-amante ou aos apelos do pai, que procura despertá-lo do seu estupor. No final, parte para mais uma viagem, mas o seu sucesso parece irremediavelmente comprometido.

Este filme de Mahamat-Saleh Haroun, um realizador do Chade, transporta-nos para a realidade das migrações africanas, onde os recursos de uma família inteira são canalizados para que o filho varão tenha hipóteses de emigrar e alcançar uma vida melhor. Com esta oportunidade, contudo, vem uma responsabilidade acrescida, com o eleito a carregar sobre os seus ombros o destino de toda a família. Um fardo que prova ser demasiado para Moussa, o personagem principal do filme, que sucumbe perante o peso das suas responsabilidades.

Também nós soçobramos, mas perante o fardo do aborrecimento interminável deste filme. A história de Moussa passa-se num limbo, sem início e sem fim – entramos no filme sem saber o que o despoletou a sua apatia, e saímos igualmente no escuro. Pelo meio, assistimos às deambulações de Moussa, o zombie patético, tão indiferentes ao seu destino quanto ele em relação às esforçadas carícias da sua amante. No final, ele chora de frustração, nós suspiramos de alívio.

Arca d’Água

Um homem vive só com a mulher incapacitada num batelão. A mulher está reduzida a um estado vegetal, e é ele que a veste, que a deita, que a senta na cadeira no convés para apanhar sol. Uma noite decide acabar com o sofrimento de ambos e pega fogo ao batelão, que se converte na pira funerária do casal.

A acção decorre num ritmo lento, alternando entre o momento presente e flashbacks do homem, que o transportam a um tempo em que a felicidade parecia possível. Tudo decorre sem diálogos e no universo fechado do lago onde o batelão se encontra ancorado. No final, a morte surge como um elemento libertador, com o homem a desamarrar a embarcação para a sua viagem final em direcção ao nada.

A realização competente de André Gil Mata não chega para insuflar vida neste objecto inanimado, com a ausência de diálogos a acentuar a dimensão de natureza morta de que o filme se reveste. O fogo final surge como libertador não apenas para os personagens, mas também para o público, e não é sem uma sensação de alívio que vemos chegar o fim do filme.

Um Roupão Vermelho Sangue

Um casal passa o dia na cama. Após o sexo, as recriminações começam, com a rapariga a culpar o seu amante por a abandonar e voltar para o seu emprego e a sua mulher. As acusações vão subindo de tom até à ruptura final.

Este filme de Pedro Caldas é um objecto esteticamente agradável, para o que muito contribui a actriz principal, Maria Leite, que não faria má figura nos melhores filmes franceses. O seu companheiro de leito, Victor Gonçalves, também assenta bem no papel de jovem marido infiel, apesar de mal abrir a boca, o que faz com que o personagem que interpreta tenha a densidade psicológica do homem dos anúncios do after-shave Denim.

O pior ocorre quando o sexo termina, com os diálogos, já de si reduzidos ao mais puro cliché, a serem tornados patéticos pela opção, a todos os níveis incompreensível, do realizador de pôr a actriz a declamar o texto com entoação operática. A estranheza poderia resultar se a actriz tivesse voz para suportar o desafio. Não é manifestamente o caso, o que nos faz desejar que a banda sonora não tivesse sido incluída no objecto final.

No final, fica a sensação da falta de ambição, ou capacidade, do realizador para ir mais além do objecto esteticamente agradável.

Visionary Iraq

Dois irmãos têm sexo incestuoso na véspera da sua ida para o Iraque. À medida que a acção se vai desenrolando, vamos sendo introduzidos no pequeno psicodrama dessa família, com a partida para o Iraque a servir como elemento catalisador de tensões latentes.

Esta pequena sinopse não faz de modo algum justiça ao filme de Gabriel Abrantes, visto que pode fazer crer que estamos perante um objecto cinematográfico com algum sentido. Essa percepção seria completamente errónea – do que se trata aqui é de um disparate pegado.

Os diálogos estão ao nível do que seria expectável de uma peça da primária realizada sem supervisão adulta, e as interpretações, todas a cargo do realizador e do seu comparsa nesta perda de tempo, Benjamin Crotty, não chegam sequer a esse patamar. A “brincadeira” da mudança de sexo atinge o paroxismo na personagem da irmã angolana, interpretada por um Abrantes besuntado de castanho.

É um desperdício inqualificável de energia que tantos átomos tenham sido reunidos para produzir este objecto lamentável. Seria talvez aconselhável que os programadores poupassem realizadores ainda em fase de afirmação identitária ao embaraço de apresentarem publicamente (e na secção de competição) objectos deste calibre. Um sério candidato a pior filme do festival.

Indie 2009 – Encounters At The End Of The World

Herzog desloca-se à Antárctida a convite de um amigo mergulhador para filmar o quotidiano dos investigadores na estação McMurdo. Encontra filósofos que conduzem Caterpillars, linguistas que tratam de plantas e cientistas que vão enlouquecendo a olhar para pinguins, e não perde uma oportunidade para demonstrar a demência dos seus personagens e o absurdo das suas actividades.

O plano de combate do realizador alemão é enunciado logo no início, informando-nos que não tinha qualquer interesse em fazer um filme de “pinguins fofos.” De facto, essa componente de deslumbramento com a Natureza está praticamente ausente deste filme. Em vez de um pastiche National Geographic, o que Herzog nos oferece é o freak show da Antárctida, povoado por seres bizarros que, insulados em investigações mais ou menos esotéricas, vão lentamente perdendo a sua conexão com a realidade.

O caso mais extremo é sem dúvida o do especialista em pinguins, que após 20 anos a escutar grasnidos, perdeu claramente a capacidade de comunicar de forma inteligível com seres humanos. Mas temos também o linguista que, tendo ido parar a uma terra inabitada, se ocupa agora de uma estufa. Ou a cientista que, antes de desembarcar na Antárctida, viajou milhares de quilómetros na América do Sul dentro de um cano de esgoto, à boleia num camião.

O ponto de contacto entre todos estes personagens é uma enorme dose de excentricidade, que os projectou para lá do jogo social e os fez resvalar para a Antárctida, como que sugados por um íman que atrai os mais excêntricos entre os excêntricos. Esse é, aliás, um conceito sublinhado por diversos dos entrevistados, que apresentam a Antárctida como o ponto onde as paralelas se cruzam e todos os outsiders se reúnem. E é essa dimensão de Twilight Zone que, como não podia deixar de ser, atrai também a Herzog.

Encounters At The End Of The World, se tem a inegável qualidade de oferecer uma perspectiva pouco vista sobre o mundo da investigação científica, torna-se por vezes confrangedor na forma rude como trata quem se coloca do lado de lá da objectiva. O “humor” de Herzog ultrapassa largamente os limites do que pode ser descrito como “corrosivo”, gozando descaradamente com os seus entrevistados e questionando de forma evidente a sanidade mental de alguns.

Nem o “amigo” mergulhador escapa ao olhar impiedoso de Herzog, com a sua descrição psicótica da violência e do horror do mundo microscópico a fazer-nos questionar seriamente a sua aptidão para regressar ao convívio social após a longa estada em McMurdo.

Mas de todos o mais perturbado será talvez o homem atrás da câmara, Werner Herzog, que viajou milhares de quilómetros até ao continente gelado para gozar com as obsessões alheias. Talvez lhe reservem um quartinho na estação McMurdo, e lhe dêem uma tesoura da poda para tratar do jardim das plantas aromáticas. Seguramente não se sentiria deslocado no seu pequeno freak show.

No final resulta um filme desequilibrado, onde a dimensão de voyeurismo psiquiátrico, que cativa na mesma medida em que causa um intenso desconforto moral, se conjuga mal com as imagens a la Costeau, que parecem cosidas à pressa para tapar o buraco da falta de escrúpulos de Herzog.

Indie Lisboa 2009

O Indie Lisboa está em pleno funcionamento, e é altura de deixar aqui algumas impressões sobre os filmes que tenho visto. É verdade que já vamos entrar no 6º dia, mas só agora é que tive uns momentos para alinhavar uns textos mais ou menos coerentes.

Vamos então começar, por ordem, com a sessão inaugural, onde foi apresentado o novo filme de Werner Herzog, que é este ano objecto de uma retrospectiva no Indie. Estava aliás previsto que o realizador alemão se deslocasse a Lisboa, mas este acabou por cancelar a sua presença à última da hora, invocando excesso de trabalho.

A apresentação de Encounters At The End Of The World ficou assim a cargo do seu produtor, que representou o melhor que pôde o papel sempre ingrato de substituto, lendo uma carta de Herzog com as desculpas da praxe e os agradecimentos vazios de sempre.

A sessão inaugural decorreu assim sem realizador consagrado, mas perante um S. Jorge repleto, tendência que se tem mantido ao longo das diversas sessões a que tenho assistido.

É extremamente positivo que, mesmo numa altura de crise, o público continue a aderir a iniciativas como o Indie Lisboa. Um sinal da maturidade do público, que vem provar que existe uma imensa minoria passível de ser captada para eventos culturais que se saibam posicionar.

E esse trabalho de posicionamento tem sido executado de forma muito conseguida pela organização do Indie, que tem tido o discernimento de resistir à tentação de descaracterizar o festival para alargar o seu alcance. Independentemente de critérios de programação, sempre discutíveis, é inegável que a equipa responsável pelo Indie soube gerar e alimentar uma dinâmica de público que garante a continuidade do festival. O Indie é hoje um evento “in” sem abdicar do seu público nuclear, e isso não acontece por acaso.

Esse é um mérito concedido à partida, e que merece desde já o nosso aplauso. Quanto aos filmes, seguem-se as críticas.

Começa a vida absurda

Pois é, meus amigos. Sou eu, o Homem Absurdo. Talvez estivessem à minha espera, ou talvez não. Mas o certo é que aqui estou. Cheguei.

Aposto que muitos pensavam que nunca mais me iam ver, ahn? AH! Enganei-vos bem! Paspalhos!

Mas o certo é que eu próprio também já duvidava que alguma vez cá chegasse. Afinal, tanto tempo assim, digamos, inexistente, isso faz um gajo começar a duvidar de tudo. Até de si mesmo.

Mas chega destes disparates. Divagar é aborrecido, o que é todo o contrário do absurdo. Portanto vamos acabar com isso.

O que me interessa agora é a vida exterior, experiências, relações, tudo isso – sangue e fogo. Vinho é que não pode ser, o que é pena. Mas não é grave. Mais vale absurdo e sóbrio que alcoolizado e sombrio.

Afinal, se quisesse a vida interior ia para um convento, não é verdade? O que, confesso, me chegou a passar pela cabeça. Afinal, ficava bem com o meu percurso de personagem de romance russo. O Ivan Karamazov e tudo isso…

Mas enfim, não cheguei a ir. E agora acho que já passou a altura. Talvez mais tarde.

Então pensei: se não vou para um convento nem desafio ninguém para um duelo (uma hipótese sempre excitante, mas infelizmente demasiado passé  para pôr em prática), o que é que faço? Também podia simplesmente enfiar uma bala na cabeça, como um bom russo, ou ir dançar com um urso.

O problema é que os ursos são difíceis de arranjar (os que sabem dançar uma mazurka decente, pelo menos) e dar um tiro na cabeça sem ser iluminado por uma vela de sebo seria simplesmente patético. E as velas de sebo são ainda mais difíceis de arranjar que os urso dançarinos, simplesmente já não se fabricam. Suponho que passaram de moda, como os duelos. Uma treta, este mundo moderno.
Restava-me a hipótese da tísica. Afinal, nada como uma boa tísica, não é verdade? Mas faltavam-me dois ingredientes fundamentais: as velas de sebo (sempre um problema) e a amante devota e famélica, que trataria de mim no casebre imundo, indiferente à pobreza confrangedora.

Sem velas de sebo e sem amante famélica não se pode ter uma boa tísica. Além disso, creio que me vacinaram contra isso. Teria que confirmar nos meus muitos boletins de vacinas, mas estou convencido que sim.

Portanto, nem tísica, nem duelo, nem bala na cabeça, nem urso dançarino. Que restava, então?

A resposta só podia ser uma: o salto para o absurdo. E foi isso que fiz. Fechei os olhos e saltei, sem pensar. Quando os voltei a abrir estava aqui. Era eu.

Olá. Bem-vindos à vida absurda. Ela está apenas a começar.

Entra o Homem Absurdo

homem-absurdo1Parecia uma noite igual às outras. Estava em casa, a ver um filme, aborrecido como um perú. De repente o telefone tocou. Levantei-me de um pulo para ir atender, qualquer desculpa seria boa para me fazer sair de casa.

Afinal era apenas uma mensagem da operadora. A dizer que podia falar até rebentar se activasse uma tarifa qualquer. Como se isso me interessasse. Até posso rebentar, mas não vai ser a falar de certeza absoluta.

Fechei o telefone com raiva da operadora, e só não o atirei contra a parede porque não tenho dinheiro para comprar outro. Afinal, não podemos ficar incontactáveis, não é verdade? Isso seria anti-social.

Voltei à cadeira e ao filme. Antes via-os no sofá, mas agora deixei de ver televisão. Vejo tudo no computador. Portanto, em vez de estar espojado no sofá, estou todo torcido na cadeira de escritório. Eu sei que parece ridículo, mas sinto-me muito melhor assim.

Passo a explicar: o sofá fomenta uma postura passiva, o que não é bom. Sentamo-nos ali para ver um filme ou um documentário, e vamos girando lentamente, normalmente no sentido contrário aos ponteiros do relógio, até acabarmos deitados a ver o filme de lado.

E quando estamos com o nosso ângulo de visão a 90º em relação à posição vertical do televisor, estamos perdidos. O sangue começa a deslizar todo para um dos lados, ensopa esse hemisfério (o esquerdo ou o direito, tanto faz) e começa tudo a entrar em pane.

É assim que nos sentamos um bocadinho para ver um programa de qualidade, do qual não nos envergonharíamos de falar aos nossos amigos, e acabamos por nos levantar quatro ou cinco horas mais tarde, num estado reminiscente de um zombie lobotomizado, depois de ter tragado tudo o que é escória televisiva e feito zapping até ao ponto da epilepsia.

Na cadeira de escritório nada disso acontece. É impossível deitarmo-nos numa cadeira de escritório, pelo que os nossos hemisférios continuam a ser irrigados de forma razoavelmente equilibrada.

E, além disso, estamos num ambiente de trabalho, o que é sempre bom. Podemos,por exemplo, ir passando os olhos pelas dezenas de newsletters que subscrevemos enquanto vemos o filme, o que é uma postura muito mais activa e impede o surgimento do zombie lobotomizado.

É claro que podemos acabar de ver a Lista de Schindler convencidos de que o Sr Schindler teve que fugir do país porque enganava o Estado nos impostos com o seu amante judeu, a quem oferecia jóias e outros presentes, mas isso é o menos. O que interessa é ser produtivo.

Enfim, estava eu a ser produtivo, quando toca a campainha. Odeio que toque a campainha. Ao contrário do telefone, que pode sempre esconder alguma surpresa agradável, a campainha raramente nos surpreende de forma positiva.

Afinal, quem é que vai aparecer de repente às dez da noite? Ninguém, como é evidente. Qualquer pessoa telefonaria primeiro. Portanto só pode ser alguma visita desagradável – um pedinchão qualquer ou, pior ainda, um daqueles comerciais das operadoras telefónicas a querer convencer-me a mudar de serviço. Como se eu já não odiasse suficientemente a minha operadora.

Além disso tenho uma igreja evangélica mesmo ao lado da porta. O que me levou a pensar que se calhar tinham começado a fazer visitas nocturnas, apostando que as pessoas são mais capazes de aceitar que o mundo foi criado em seis dias se estiverem convertidas no zombie lobotomizado. São mais espertos do que o que parecem, estes evangélicos.

Como não podia ser ninguém que eu quisesse ver, fiz o que costumo fazer nestas situações: nada. Fiquei simplesmente à espera que se fossem embora, o que resulta quase sempre. Tocam mais uma vez ou duas, mas depois desistem e deixam-me em paz.

Mas desta vez não foi assim. A seguir ao segundo toque veio um terceiro, e depois um quarto. Ao quinto toque não aguentei mais e fui ver quem era, a espumar de raiva.

Abri a porta de rompante, pronto para desancar o importuno, e fiquei petrificado. Afinal não era um comercial de uma operadora telefónica. Não era um evangélico. Era o Homem Absurdo.

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